Agosto 15, 2009

Contradição

Ah, se o tempo determinasse o tamanho do sentimento!!

Com certeza eu pediria para retirar de mim tudo que nasceu em pouco tempo, mas infelizmente o tempo não determina. Existem coisas muito mais fortes do que horas, minutos, segundos…

Lamentarei quando convencer-te de que o que digo é verdade e o tempo por si só encaminhar-se de apagar o que em pouco tempo surgiu… É, talvez o tempo possa mostrar o que será; e as horas, os minutos, os segundos possam enfim passar.

LLC*

Não há nada que me deixe mais frustrada do que pedir sorvete de sobremesa, contar os minutos até ele chegar
e aí ver o garçom colocar na minha frente uma bolinha minúscula do meu sorvete preferido.
Uma só. Quanto mais sofisticado o restaurante, menor a porção da sobremesa. Aí a vontade que dá é de passar numa loja de conveniência, comprar um litro de sorvete bem cremoso e saborear em casa com direito a repetir quantas vezes a gente quiser, sem pensar em calorias, boas maneiras ou moderação.
O sorvete é só um exemplo do que tem sido nosso cotidiano.
A vida anda cheia de meias porções,de prazeres meia-boca, de aventuras pela metade.
A gente sai pra jantar, mas come pouco.
Vai à festa de casamento, mas resiste aos bombons.
Conquista a chamada liberdade sexual,mas tem que fingir que é difícil (a imensa maioria das mulheres
continua com pavor de ser rotulada de ‘fácil’).
Adora tomar um banho demorado, mas se contém pra não desperdiçar os recursos do planeta.
Quer beijar aquele cara 20 anos mais novo,mas tem medo de fazer papel ridículo.
Tem vontade de ficar em casa vendo um DVD, esparramada no sofá,mas se obriga a ir malhar. E por aí vai.
Tantos deveres, tanta preocupação em ‘acertar’, tanto empenho em passar na vida sem pegar recuperação…
Aí a vida vai ficando sem tempero, politicamente correta e existencialmente sem-graça, enquanto a gente vai ficando melancolicamente sem tesão…
Às vezes dá vontade de fazer tudo ‘errado’. Deixar de lado a régua, o compasso, a bússola, a balança e os 10 mandamentos.
Ser ridícula, inadequada, incoerente e não estar nem aí pro que dizem e o que pensam a nosso respeito.
Recusar prazeres incompletos e meias porções.
Até Santo Agostinho, que foi santo, uma vez se rebelou e disse uma frase mais ou menos assim:
‘Deus, dai-me continência e castidade, mas não agora’…
Nós, que não aspiramos à santidade e estamos aqui de passagem, podemos (devemos?) desejar várias bolas de sorvete, bombons de muitos sabores, vários beijos bem dados, a água batendo sem pressa no corpo,
o coração saciado.
Um dia a gente cria juízo. Um dia. Não tem que ser agora.
Por isso, garçom, por favor, me traga: cinco bolas de sorvete de chocolate, um sofá pra eu ver 10 episódios do ‘Law and Order’, uma caixa de trufas bem macias e o Richard Gere, nu, embrulhado pra presente. OK?
Não necessariamente nessa ordem.
Depois a gente vê como é que faz pra consertar o estrago . . .

Palavrões (Millor Fernandes)

Setembro 30, 2008

14 de Novembro de 2005

 

Os palavrões não nasceram por acaso. São recursos extremamente válidos e criativos para prover nosso vocabulário de expressões que traduzem com a maior fidelidade nossos mais fortes e genuínos sentimentos. É o povo fazendo sua língua. Como o Latim Vulgar, será esse Português Vulgar que vingará plenamente um dia. “Pra caralho”, por exemplo. Qual expressão traduz melhor a idéia de muita quantidade do que “Pra caralho”? “Pra caralho” tende ao infinito, é quase uma expressão matemática. A Via-Láctea tem estrelas pra caralho, o Sol é quente pra caralho, o universo é antigo pra caralho, eu gosto de cerveja pra caralho, entende?

No gênero do “Pra caralho”, mas, no caso, expressando a mais absoluta negação, está o famoso “Nem fodendo!”. O “Não, não e não!” e tampouco o nada eficaz e já sem nenhuma credibilidade “Não, absolutamente não!” o substituem. O “Nem fodendo” é irretorquível, e liquida o assunto. Te libera, com a consciência tranqüila, para outras atividades de maior interesse em sua vida. Aquele filho pentelho de 17 anos te atormenta pedindo o carro pra ir surfar no litoral? Não perca tempo nem paciência. Solte logo um definitivo “Marquinhos, presta atenção, filho querido, NEM FODENDO!”. O impertinente se manca na hora e vai pro Shopping se encontrar com a turma numa boa e você fecha os olhos e volta a curtir o CD do Lupicínio.

Por sua vez, o “porra nenhuma!” atendeu tão plenamente as situações onde nosso ego exigia não só a definição de uma negação, mas também o justo escárnio contra descarados blefes, que hoje é totalmente impossível imaginar que possamos viver sem ele em nosso cotidiano profissional. Como comentar a bravata daquele chefe idiota senão com um “é PhD porra nenhuma!”, ou “ele redigiu aquele relatório sozinho porra nenhuma!”. O “porra nenhuma”, como vocês podem ver, nos provê sensações de incrível bem estar interior. É como se estivéssemos fazendo a tardia e justa denúncia pública de um canalha.

São dessa mesma gênese os clássicos “aspone”, “chepone”, “repone” e, mais recentemente, o “prepone” – presidente de porra nenhuma. Há outros palavrões igualmente clássicos. Pense na sonoridade de um “Puta-que-pariu!”. E o que dizer de nosso famoso “vai tomar no cu!”? E sua maravilhosa e reforçadora derivação “vai tomar no olho do seu cu!”. Você já imaginou o bem que alguém faz a si próprio e aos seus quando, passado o limite do suportável, se dirige ao canalha de seu interlocutor e solta: “Chega! Vai tomar no olho do seu cu!”. Pronto, você retomou as rédeas de sua vida, sua auto-estima. Desabotoa a camisa e sai à rua, vento batendo na face, olhar firme, cabeça erguida, um delicioso sorriso de vitória e renovado amor-íntimo nos lábios.

E seria tremendamente injusto não registrar aqui a expressão de maior poder de definição do Português Vulgar: “Fodeu!”. E sua derivação mais avassaladora ainda: “Fodeu de vez!”. Você conhece definição mais exata, pungente e arrasadora para uma situação que atingiu o grau máximo imaginável de ameaçadora complicação?

Expressão, inclusive, que uma vez proferida insere seu autor em todo um providencial contexto interior de alerta e auto-defesa. Algo assim como quando você está dirigindo bêbado, sem documentos do carro e sem carteira de habilitação e ouve uma sirene de polícia atrás de você mandando você parar: O que você fala? “Fodeu de vez!”. Sem contar que o nível de stress de uma pessoa é inversamente proporcional à quantidade de “foda-se!” que ela fala.

Existe algo mais libertário do que o conceito do “foda-se!”? O “foda-se!” aumenta minha auto-estima, me torna uma pessoa melhor. Reorganiza as coisas.Me liberta. “Não quer sair comigo? Então foda-se!”. “Vai querer decidir essa merda sozinho(a) mesmo? Então foda-se!”. O direito ao “foda-se!” deveria estar assegurado na Constituição Federal. Liberdade, igualdade, fraternidade. E…foda-se!”

Você é fashion?

Setembro 23, 2008

 

Você está ligada na moda? É antenada com a tendência? Qual seu designer preferido? As pessoas estão obcecadas pelo o que se usa, o que está em alta ou em declínio na onda fashion. Leitores querem, editores pedem, e jornalistas pulam em cima para anotar grifes utilizadas por qualquer um com cinco minutos de fama. Antes de sair de casa, o famoso é obrigado a conferir a etiqueta de cada peça que veste. Ai dele se não reservar boa parte de seus rendimentos pra isso, porque o modelinho escolhido pode determinar os rumos de sua carreira. Se nada ali for Dolce, Armani ou Gucci, se for um Casas Americanas, e o famoso um astro em ascensão, será atirado na fogueira pública da breguice. Já se quem estiver usando for a Contanza Pascolato, aí a escolha terá sido um exemplo de despojamento elegante! Tudo é relativo e fútil minha gente, fútil pra caramba, nesse cada vez mais vasto mundo das superficialidades. Pois esse é o lado chato da estória, a patrulha de quem segue a boiada pisoteando tudo que não agrada seu gueto de atrofiadinhos da mente – da mente que não pensa, a mente da massa que é burra mesmo, porque se pensar discorda, e aí, não cabe mais ali.Nunca foi diferente. Uma Alemanha inteira seguiu um homenzinho de bigode durante anos, porque esqueceu de pensar por um tempo. E lá as conseqüências foram mais desastrosas do que nos campos das ditaduras estéticas. Fazer o que? Deixar estar companheiro, porque do outro lado da burrice, existe a verdade. No caso da moda, o estilo de cada um é esta verdade. E ela tonifica a mesmice

Você chega num lugar com aquele estilão só seu, e as pessoas fazem uma leitura daquilo. É uma leitura parcial claro, mas já é o começo de um encontro. O “não ligo pra isso” da contra-corrente só dificulta o início dessa comunicação, num mundo que mau ou bem, superestima a aparência. Li na revista Time que apenas 20% da comunicação humana é feita através das palavras, mesmo quando se está falando. Os outros 80% acontecem pela mímica corporal, a expressão do rosto, a entonação, as maneiras da pessoa e o que ela está vestindo, entre outros dados. Então se já anda tão difícil a gente se compreender porque ninguém quer ler os sinais mais sutis, e se isso de panos e estilos é algo bobo pra você, porque então não conceder justamente aqui onde a coisa é cada vez mais importante para tantos? Por que não? Se não dói nada, e você meu príncipe, só tem a ganhar ao escolher seu jeito dentro disso? Claro que é esquisito que enquanto explodem prédios numa ONU em declínio, enquanto caem Saddams e sobem Bushs, e que guerras mentirosas nos são impostas, o mundo se julgue através de signos tão limitados. É estranhíssimo que um mundo assim se deslumbre com passarelas de excentricidades têxteis e os peitos perfeitos de super mulheres talhadas com bisturi e dinheiro. Se você não quer compactuar com tanta contradição, é direito seu, fique a vontade. Às vezes também me revolto. Vou te contar um segredo, fútil. Eu ia fazer uma plástica sabe, pra alisar as linhas de expressão ao redor dos olhos. Pois não vou mais. Não vou! Elas que fiquem aqui mais um tempo, me lembrando quem sou. São meus choros e meus recomeços. Farei concessões na marca do jeans, na combinação das cores, em botar isso e não aquilo pra ir ali. Mas não preciso parecer ter 20 anos e assim seduzir quem não me interessa. A gente se curva onde pode, e isso também é estilo. É que modismos, peitos, Bushs e companhia, tudo isso cansa muito, e lá dentro de mim há um clamor pelas coisas como elas são. Eu quero comer pão com manteiga da fazenda de minha infância. Quero um colo de mãe bem farto e macio, e com os peitos murchos como devem ser os peitos de mãe. Cadê elas, as mães de verdade, com cara de mãe e tempo pra gente? Quero uma pra me ouvir reclamar com saudade das conversas fiadas que nunca terei. Quero de volta três horas por dia, pra não fazer nada. Quero andar de carroça com ar puro batendo no rosto. Você sabe qual a média de velocidade de um carro na cidade? 17 km por hora. Igual ao da carroça do início do século passado. Quer dizer, andamos e andamos pra chegar aonde já estivemos, e com metade do prazer. O que isso tem a ver com o mundo fashion? Também não sei meu príncipe… Responda aí você que veio comigo até esse ponto. Eu aliás, já nem estou mais aqui, estou lá no meu canto sem grife, cheia perguntas desantenadas e uma forte tendência pra lugar nenhum.

(Maitê Proença)