Junho 22, 2009

JORNAL O DIA
Domingo, 21/junho/2009

Lamentações

José Hamilton Bezerra Lima
(promotor de justiça)

Feliz não é aquele que não sofre, e sim aquele que tem a coragem de sofrer. Não há pessoa humana, por rica ou poderosa que seja, sábia ou bela, que não tenha a sua cota de sofrimento, de provações, de contrariedades, a experimentar a vida.

Cada pessoa é a própria medida do seu sofrer. Nós é que fazemos os sofrimentos maiores ou menores, segundo as dimensões e os medidores da nossa sensibilidade, das nossas suscetibilidades. O mesmo sofrimento, para uns, pode ser estóica e heroicamente suportado, e para outros angustiosa e dolorosamente tolerado.

Padre Manuel Bernardes em seu livro “Novo Floresta”, conta a seguinte história, que nos oferece uma perspectiva interessante e instrutiva, a respeito da dimensão do sofrimento de cada pessoa. Um eremita, em plena solidão do deserto, tinha como único alimento diário uma maçã, que um anjo do céu ali deixava todas as manhãs, junto à pedra onde repousava a sua cabeça. Um dia, cansado daquela vida, austera e cansado de tantas privações, foi vencido pela tentação de abandonar aquelas lugares ermos e procurar ambiente onde pudesse viver mais humanamente e morrer mais tranquilamente. Toma do seu cajado, e começa a sua jornada, sempre acompanhado do leito tranquilo do rio, quando a certa altura, se depara com outro eremita, mais alquebrado pelos anos, mais magro de carne, mais cadavérico do que ele. Quando lhe conta as decisões de abandonar as penitências que vinha fazendo no deserto, porta-se ele de joelho aos pés, e, com lágrimas nos olhos, lhe pede que não faça tamanha descaridade com ele, revelando que se alimenta diariamente somente com as cascas das maçãs que ele comia, e que desciam pela água daquele rio.

Nós nos lastimamos e nos revoltamos com os nossos sofrimentos, julgando-o humanamente insuportáveis, e que para outros seriam prazer e felicidade, se pudessem trocar pelos seus pesares e angústias. Se realmente nos déssemos ao trabalho e pesquisa de examinar o sofrimento de muita gente, levantaríamos agradecidos os olhos aos céus pela felicidade do sofrimento que suportamos.

O que importa, porém, como princípio de sabedoria não é medir o nosso sofrer ou comparar a nossa vida, com o sofrer da vida dos outros. É, sim, aceitarmos, com heroicidade, o sofrimento como condição e condimento da própria vida. Será com o peso das nossas aprovações que temos que galpar e escalar a montanha da vida. Aqueles que se abatem se deixam vencer pelo pessimismo e pelo desespero estão-se marginalizando da própria vida, e jamais conseguirão alcançar vitórias e triunfos, porque só venceremos quando realmente formos maiores do que os nossos próprios sofrimentos e dificuldades.

Irmão, não se lamente das dores e dos seus sofrimentos. Lamenta-se, sim, no dia em que sentir que lhe falta coragem e paciência para suportar as difiuldades e os percalços da sua vida.